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Santa Teresa de Jesus


«Filhas, não vos estranheis das muitas coisas que é preciso ter em conta para começar esta viagem divina [de oração], que é caminho real para o Céu. Indo por ele, ganha-seum grande tesouro, e não nos parecerá que custe assim tanto. Chegará o tempo em que conheceremos como tudo é nada para tão grande preço.

Voltando agora aos que querem ir por ele, sem parar, até ao fim, que é chegar a beber desta água de vida, digo-lhes como devem começar: importa muito que, acima de tudo, se tenha uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar a essa água, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra pelo caminho ou falte ânimo para os trabalhos que há nele, ou até mesmo que o mundo se afunde.

Com efeito, ouve-se muitas vezes dizer: “é perigoso”, “foi por aqui que fulana se perdeu”, “este enganou-se”, “aquele rezava muito, e caiu”, “prejudicam a virtude”, “não é para mulheres, porque podem-lhe criar ilusões”; “é melhor que fiem”, “deixem-se dessas cortesias”, “basta que rezem o Pai-Nosso e a Ave-Maria”...

Eu digo o mesmo, irmãs; mas isso não basta. É sempre um grande bem fundar a vossa oração em orações ditas por uma tal boca como a do Senhor. Nisto têm razão porque, se não estivesse já a nossa natureza tão fraca e tão tíbia a nossa devoção, não era preciso recorrer a formas de orações nem a outros livros. Mas agora dirijo-me a almas que não conseguem recolher-se noutros mistérios… Assim, pareceu-me bem ir apresentando aqui uns princípios, meios e fins da oração, sem que me detenha em coisas elevadas... e, se fordes cuidadosas e humildes, de nada mais tereis necessidade.

Eu fui sempre muito afeiçoada às palavras do Evangelho, que me têm feito recolher mais do que livros muito bem escritos... Recolhida, pois, com este Mestre da Sabedoria, talvez Ele me inspire alguma reflexão que vos satisfaça. Não vou fazer nenhuma explicação desta divina oração [Pai-Nosso], pois não me atreveria a tanto e já há muitas; e, mesmo que não houvesse, seria um disparate fazê-lo. Irei apenas refletir sobre as palavras do Pai Nosso, porque, às vezes, com tantos livros, parece que se perde a devoção àquilo que nos ajuda tanto tê-la. A verdade é que qualquer mestre, quando ensina uma coisa, ganha amor ao discípulo e gosta que ele se alegre com o que lhe ensina e ajuda-o muito para que aprenda. Assim fará connosco este Mestre celestial.»

Caminho de perfeição, 21, 1-4