Ávila | Ecos do Encontro Mundial OCDS
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A Ordem dos Carmelitas Descalços organizou o I Encontro Mundial da Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS), no Palácio de Congressos Lienzo Norte, em Ávila, sob o lema “Testemunhas da Experiência de Deus: Identidade e Missão”, entre os dias 23 e 26 de julho.
Depois de se terem realizado 2 congressos mundiais em 1996 e 2000, este foi o maior Encontro de comunhão e formação do Carmelo Secular a nível internacional, juntando cerca de 1000 participantes, provenientes de 80 países na terra natal da nossa Madre Santa Teresa de Jesus. Ao longo dos 4 dias de Encontro, houve momentos de alegria, troca de experiências e de vivências, partilha de cultura e momentos de oração profundamente sentidos e vividos de acordo com o carisma carmelita-teresiano, em profundo silêncio e interioridade.
O Encontro, que dispôs de tradução simultânea em espanhol, francês, italiano e inglês, iniciou-se com uma mesa de abertura, no auditório do Centro de Congressos, onde diversas entidades oficiais, desde a Câmara Municipal de Ávila e os responsáveis da Cultura de Castilha e Leon, o Padre Geral, P. Miguel Márquez e o Delegado Geral para a OCDS, P. Ramiro Casale, entre outros, num ambiente de alegria e de festa, deram as boas vindas a todos os participantes, que responderem com aplausos e cânticos. Após este momento de abertura, celebrou-se a Eucaristia, no mesmo auditório onde decorreram todas as palestras. E, este foi o primeiro momento marcante deste Encontro, porque passámos de um ambiente de alegria e festa, para um momento de interioridade onde todos respeitaram o silêncio e a solenidade que o momento eucarístico exigia. Foi uma transformação impactante e demonstradora do espírito que animou todos os participantes.
A primeira palestra foi dada pelo P. Miguel Marquéz, Padre Geral da OCD, que nos veio falar da identidade Carmelita, salientando que a verdadeira identidade Carmelita não é estática, mas dinâmica, baseada no exemplo de Nossa Senhora, vivida com alegria e esperança, em comunhão e união com os ramos das Irmãs e dos Frades Carmelitas Descalços. O Padre Geral alertou ainda para a necessidade de viver uma oração humilde, simples e profunda, que abra as portas ao encontro transformador com Deus, sempre em busca de aprender mais e mais sobre a Ordem e a Espiritualidade dos nossos Santos, alertando que um Carmelita é um aprendiz para toda a vida. Ou seja, a formação contínua é fundamental para a vivência desta espiritualidade e o Carmelita deve procurar sempre formar-se até ao fim da vida, independentemente de ter Promessas Temporárias ou Definitivas, há muito ou pouco tempo, pois, como afirmou, «o verdadeiro sábio é um principiante durante toda a vida.» O Padre Geral deixou ainda alguns alertas importantes sobre as comunidades e os seus Conselhos. Avisou que a maioria dos problemas das comunidades são problemas de comunicação e que é fundamental fomentar a escuta, a sinceridade e a confiança, que a vivência de um carisma autêntico cria comunhão e não fomenta a divisão, que o governo da comunidade ou da OCDS é um serviço e não poder ou prestígio e deve ser vivido e exercido em prol dos irmãos da Comunidade ou Província, que o Carmelo é, ou deve ser, escola de oração nas suas diferentes realidades, e local onde perdura a amizade e a atenção para com o próximo. Não posso deixar de partilhar ainda outro ponto abordado pelo P. Geral, numa conferência cheia de sentido e amizade. A Ordem tem uma raiz rica e fecunda, que nos dá uma pertença que não é dependência, mas liberdade compartilhada, num projeto que dá sentido e identidade e que deve tocar a nossa vida, fazendo-se sentir em todas as dimensões da nossa vida, seja no trabalho, em casa ou nos ambientes de lazer. A pertença ao Carmelo vive-se em todas as dimensões da nossa vida e deve alterar a forma como nos comportamos e como nos relacionamos com os outros, de tal forma que as pessoas se questionem o que nos leva a ser diferentes, pela positiva, claro.
Após o almoço, assistimos à palestra da Linda Levi, OCDS de Itália, sobre a perceção de pertença e de corresponsabilidade, salientando a importância de todos os membros de uma Comunidade ou Província sentirem que pertencem à Ordem e que são corresponsáveis no seu rumo e crescimento. Para tal, afirmou que é fundamental que todos sejam escutados, que haja partilha de responsabilidades (até mesmo entre os três ramos da Ordem) e que haja um verdadeiro diálogo entre todos. Alertou, ainda, para a importância de valorizar as diferentes opiniões, sempre integradas no carisma carmelita.
Ainda durante a tarde, pudemos assistir à apresentação da Angela Vel, OCDS dos Estados Unidos, sobre a criação do plano de formação norte-americano, numa palestra intitulada “Formação Inicial e Contínua”. A palestrante apresentou o trabalho desenvolvido nessa Província para criar um modelo de formação robusto e aplicável a todas as Comunidades, que culminou na criação de vários livros formativos, para cada etapa de vida carmelita até às Promessas Definitivas. O dia terminou com uma oração contemplativa onde, mais uma vez, reinou o silêncio e a interioridade, num auditório repleto e em profunda adoração eucarística.
O segundo dia iniciou-se com a Eucaristia, mais uma vez vivida em interioridade e contemplação. Após este momento central do nosso dia, o P. Alzinir Debastiani, OCD e ex-Delegado Geral para a OCDS, abordou o tema da “Assistência Pastoral da OCDS”, abordando a evolução dos documentos que a regem desde a sua criação, passando por alguns dos desafios e exigências deste acompanhamento. O P. Alzinir alertou que existe, ainda, um certo desconhecimento dos documentos oficiais da OCDS (quer pelos frades, quer pelos leigos) e que existe um envelhecimento e uma diminuição do número de frades que estão disponíveis para acompanhar a OCDS. Lembrou que acompanhar significa ajudar ao crescimento e à compreensão do carisma do Carmelo Teresiano, manter boas relações dentro da Comunidade e com a Ordem e a Igreja e que o seu objetivo deve ser cumprir a missão de acompanhamento que lhe é confiada. Deste modo, aconselhou os Assistentes Espirituais a terem muito clara qual é a Espiritualidade da Ordem e que não a misturem com outras espiritualidades, a ajudarem a construir o sentido de pertença à Ordem através da misericórdia, da escuta, da paciência e da proximidade, mas também com firmeza e compaixão, à imagem do Bom Pastor.
A manhã terminou com a conferência do Manuel Vasquez Loja, OCDS do Equador, que nos desafiou a “Formar, em conjunto, a Comunidade Teresiana”. Manuel Vasquez Loja salientou que um Carmelita Descalço não existe sem a sua Comunidade, que é o núcleo da nossa vocação, que não é perfeita, mas é o local onde somos desafiados a crescer, onde Deus se faz experiência e se transforma em escola de amizade com Ele, num espaço onde aprendemos a amar. Propôs quatro caminhos para formar Comunidade: «Oração (sem oração não há Carmelo), Fraternidade (O Carmelo não é um conjunto de solistas, mas um coro de vozes), Humanidade (Santa Teresa não procurava pessoas perfeitas, mas sim humildes, verdadeiras e capazes de amar) e Missionário (a Comunidade que encontra Cristo, sai para O compartilhar). Indicou ainda a necessidade de cada Comunidade discernir o que a fortalece (nomeadamente a centralidade em Cristo, a oração, o perdão, a formação, a corresponsabilidade e o Amor concreto), e o que a destrói (por exemplo, o individualismo, a crítica, o protagonismo, a falta de oração e a superficialidade) e o que mantém Cristo no seu centro.
A parte da tarde do segundo dia foi vivida num ambiente de festa, com algumas Províncias a partilharem alguns dos seus costumes e hábitos culturais, associados à oração e celebrações comunitárias, terminando com um momento de adoração eucarística orientado pela Irmã M. Alexandra Triana, OCD da Província de Espanha.
O terceiro dia iniciou-se, como o anterior, com a Eucaristia, no mesmo ambiente de interioridade que marcou todos os momentos de oração. Depois, assistimos à palestra da Zinaha Voahanginiaina, OCDS de Madagáscar, que nos falou de “Oração, fraternidade e comunhão”, numa partilha sobre o centro da vivência de uma Comunidade OCDS. Zinaha Voahanginiaina salientou que um Carmelita deve viver a sua vocação ao Carmelo em todos os ambientes da sua vida, cumprindo com a Eucaristia diária (se possível), a recitação do Terço, a Liturgia das Horas, a meditação diária, a leitura espiritual, a participação nos dias de festa da Ordem e na reunião mensal. Com tantas atividades e compromissos, Zinaha questionou como é possível ainda ter tempo para viver outras espiritualidades ou pertencer a outros grupos cristãos, alertando que a pertença à OCDS não é algo para se viver nos nossos tempos livres, mas sim algo central ao nosso ser. Abordou ainda a necessidade da correção fraterna e do discernimento vocacional dentro das Comunidades como fator essencial para o crescimento das mesmas, sempre vividos com amor, transparência e sinceridade.
A manhã terminou com a palestra da Meg Ramos, OCDS das Filipinas, sobre “Fidelidade criativa: a missão da OCDS na Igreja, na Ordem e no Mundo”. Meg Ramos começou por salientar que o carisma carmelitano é uma graça do Espírito Santo para a construção da Igreja e que a nossa missão é a evangelização do mundo no espírito do Carmelo Teresiano, através de ações concretas no Mundo, como trazer a paz a uma família dividida, ser uma pessoa integra na nossa vida profissional, acompanhar pessoas em dificuldades com compaixão e promover uma vida espiritual e alegre. Ou seja, a nossa missão é viver no Mundo com o coração de Cristo. Não apenas observar e rezar, mas intervir positivamente na vida de quem nos rodeia, trazendo o Amor de Cristo a todos os ambientes em que vivemos.
Após o almoço, o P. Ramiro Casale, Delegado Geral para a OCDS, abordou o tema “Caminhar para o futuro em conjunto”, abordando as raízes seculares da Ordem e o “sonho” de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz (a oração como amizade com Cristo, o amor fraterno, o serviço eclesiástico, a visão de uma vida contemplativa que conduz ao fruto apostólico, assegurando o espírito missionário do Carmelo). Enumerou as dádivas da espiritualidade Carmelita: Oração como caminho fundacional para a união com Deus; Fraternidade como escola de comunhão e amor mútuo; Apostolado nascido diretamente da contemplação; Herança espiritual rica dos nossos Santos; Inspiração para as pessoas, dentro e fora da Igreja. Apresentou ainda alguns desafios com que nos deparamos hoje em dia, como a necessidade de renovação da vida de oração, fortalecimento da sensação de pertença, abranger novas gerações, superar a formação meramente intelectual e nutrir relações fraternas autênticas. Salientou que estes desafios «são oportunidades de crescimento e fortalecimento da nossa vocação.» Terminando o seu discurso, encorajou-nos a caminhar com esperança, abraçando estes desafios com coragem e confiança em Deus.
O dia terminou com a apresentação dos dados do Censos OCDS 2025, que estão disponíveis no site https://digicarmel.com/index.vm?view=ocds&lang=es.
No domingo, o último dia do Encontro decorreu em ambiente de alegria e convívio, com os participantes a dividirem-se por 4 excursões a locais com forte ligação à nossa Ordem: Segóvia, Alba de Tormes, Medina de Campo e Fontiveros e Salamanca e Duruelo. No final do dia e como encerramento formal do Encontro Mundial OCDS, celebrou-se a Eucaristia na Catedral de Ávila, presidida pelo Bispo de Ávila, Dom Jesús Rico Garcia.
Foram 4 dias intensos, alegres, de uma partilha e convívio incríveis, assim como de fortes momentos formativos e de oração, que ficarão na memória de todos quantos participaram!




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